Esquemas e funções · Análise
Duas Linhas de Quatro: O Esquema Que Todo Mundo Aprende Primeiro
O 4-4-2 arruma quatro defensores, quatro meio-campistas e dois atacantes em três linhas retas. Por que defende tão bem, onde fica em minoria e quem ainda usa.
O 4-4-2 é um esquema tático com quatro defensores, quatro meio-campistas e dois atacantes, dispostos em três linhas retas. Ele cobre a largura do campo duas vezes, com um lateral e um meia aberto de cada lado, e dá um parceiro a cada jogador: dois zagueiros, dois meio-campistas centrais, dois atacantes. Essa simetria explica por que é o primeiro desenho que a maioria dos jogadores aprende e por que, décadas depois de sair de moda, ainda é o desenho ao qual muitos times voltam quando defendem.
Ele surgiu nos anos 1960, quando os quatro atacantes do 4-2-4 se mostraram caros demais para sustentar. Viktor Maslov, no Dínamo de Kiev, recuou os pontas para o meio-campo, e a Inglaterra de Alf Ramsey ganhou a Copa do Mundo de 1966 sem nenhum ponta convencional. Na Inglaterra, virou o padrão nacional por trinta anos. A versão mais influente, porém, foi italiana. O Milan de Arrigo Sacchi, campeão europeu em 1989 e 1990, jogava num 4-4-2 com marcação por zona, linha de impedimento alta e pressão coordenada, e Sacchi queria que a distância entre o último defensor e o primeiro atacante ficasse em cerca de vinte e cinco metros. É essa compactação, mais do que os números, que as pessoas têm em mente quando elogiam um bom 4-4-2.
Na defesa, o atrativo é óbvio. Duas linhas de quatro, próximas uma da outra, deixam pouquíssimo espaço entre as linhas, e os dois atacantes podem fechar os passes para o volante adversário. Funciona como bloco médio e funciona como bloco baixo: o Atlético de Madrid de Diego Simeone ganhou o Campeonato Espanhol de 2013-14 com um 4-4-2 estreito, que empurrava o adversário para os lados e defendia os cruzamentos, e o título do Leicester City em 2015-16 veio de um 4-4-2 recuado e de transições rápidas com Jamie Vardy e Riyad Mahrez. As duplas em cada lado tornam natural a dobra de marcação em cima de um ponta.
No ataque, o desenho vive de parcerias. A dupla de frente clássica é um pivô e um velocista, ou um que recua para receber e outro que ataca a profundidade. Os meias abertos fornecem os cruzamentos, e os laterais passam por fora para criar o dois contra um no corredor. O Manchester United da tríplice coroa de 1999 é o exemplo habitual de quanto futebol pode sair dessa estrutura simples quando os jogadores de lado, David Beckham e Ryan Giggs, são bons o bastante.
O problema está no meio do campo. Contra um 4-3-3 ou um 4-2-3-1, os dois meio-campistas centrais enfrentam três, e não há correria que resolva uma conta simples. Se um atacante recua para ajudar, o time perde o segundo homem de frente; se ninguém recua, o adversário tem um jogador livre na saída de bola toda vez. As linhas retas são o segundo problema. Sem ninguém posicionado entre o meio-campo e o ataque, o 4-4-2 tem dificuldade para receber no bolsão à frente da defesa adversária, e a troca de passes pode virar um U em volta do bloco, de lateral para zagueiro e de zagueiro para lateral. E os passes que quebram linhas e entram entre as duas linhas de quatro só têm mais uma linha para vencer.
Os técnicos remendaram esses buracos sem abandonar o desenho. O losango, um 4-4-2 com um volante, dois meias pelos lados e um 10, acerta os números no centro ao custo da amplitude natural. O 4-2-2-2 de Ralf Rangnick fecha os jogadores de lado nos meios-espaços e usa o desenho para pressionar, não para cruzar. E muitos times que atacam em outro esquema ainda defendem num 4-4-2, porque é o jeito mais rápido de colocar duas linhas compactas atrás da bola. Você pode montar um 4-4-2 na prancheta tática e acrescentar um adversário num 4-3-3 para ver com os próprios olhos o homem que sobra no meio-campo.
Por que os grandes times pararam de jogar no 4-4-2?
Principalmente por causa dos números no meio-campo central. Quando a maioria dos adversários passou a ter três jogadores ali, dois ficavam em minoria o tempo todo, e os times de posse conseguiam ficar com a bola à vontade. Um atacante único com um 10 ou com três meio-campistas atrás dele resolveu isso. Mas o 4-4-2 não desapareceu: ele sobrevive como desenho defensivo, em sistemas de pressão como o 4-2-2-2 e em times que aceitam ceder a bola e contra-atacar.
Fontes e leitura complementar
- The 4-4-2: football tactics explained — The Coaches' Voice
- Formations: football tactics explained — The Coaches' Voice
- Formation (association football) — Wikipedia