Estilos de jogo · Análise
Jogo de posição: como o jogo posicional cria superioridade com estrutura
Jogo de posição explicado: as três superioridades, o homem livre, as regras dos corredores, de Cruyff a Guardiola, e o contraste com o aposicional de Diniz.
Jogo de posição é uma forma de atacar em que os jogadores ocupam zonas planejadas do campo para criar superioridade sobre o adversário. A bola então procura o homem livre, o jogador que ninguém está marcando.
O nome vem do espanhol juego de posición. No Brasil, as duas formas circulam: "jogo de posição" e "jogo posicional". Pep Guardiola é o técnico mais associado à ideia hoje, mas a raiz passa por Johan Cruyff e pelo Ajax de Rinus Michels.
Jogo de posição ou jogo posicional: como o Brasil fala do tema
O termo ganhou destaque no debate brasileiro em 2020, quando Domènec Torrent, ex-auxiliar de Guardiola, assumiu o Flamengo. O Lance! reuniu especialistas para responder a uma pergunta simples: afinal, o que é o jogo posicional?
Torrent explicou que jogar posicional não significa ficar na mesma posição. Os jogadores podem trocar de lugar, mas as posições precisam estar sempre ocupadas, para que o time jogue mais rápido. Renato Rodrigues, do DataESPN, lembrou que, historicamente, o ataque no futebol brasileiro foi tratado como algo intuitivo e deixou uma frase que resume o mal-entendido: "jogo posicional estático é o jogo posicional mal feito".
Jogo de posição não significa jogador parado. Significa que, a cada momento, cada espaço importante do campo está ocupado por alguém. Os nomes mudam, as zonas ficam.
A ideia central: as três superioridades
O jogo de posição começa com uma pergunta: onde o meu time tem vantagem agora? O site Footure e um artigo publicado no site do jornalista Martí Perarnau, biógrafo de Guardiola, descrevem três tipos de superioridade.
- Numérica: mais jogadores que o rival numa área, como três contra dois na saída de bola. É a ideia de superioridade numérica.
- Qualitativa: colocar o melhor jogador do time contra um adversário mais fraco, por exemplo um ponta no um contra um com o lateral.
- Posicional: jogadores escalonados em alturas diferentes, entre as linhas do rival, onde o marcador não consegue pressionar sem abrir um buraco.
O Footure resume o objetivo: criar superioridade "atrás da linha rival de pressão". O artigo do site de Perarnau registra a síntese de Guardiola: mover o adversário, não a bola.
O homem livre e o terceiro homem
Uma frase muito citada do estilo é do técnico Juanma Lillo. O Footure a reproduz assim: "A bola vai às posições, e não as posições vão até a bola."
O jogador mais valioso é o homem livre: o companheiro sem marcação, que pode receber e girar de frente para o jogo. O método é atrair a pressão com passes curtos num setor e depois soltar a bola para quem ficou livre em outro. Por isso o terceiro homem e os passes que quebram linhas são centrais. São os movimentos que encontram o homem livre atrás da primeira linha de pressão.
As regras da grade
Segundo o artigo do site de Perarnau, Guardiola treina seus jogadores num campo marcado com linhas, para que se orientem por elas. O texto descreve duas regras gerais, recomendadas, não obrigatórias:
- no máximo três jogadores na mesma linha horizontal;
- no máximo dois no mesmo corredor vertical.
O campo é dividido em cinco corredores: dois pelos lados, dois por dentro (os meios-espaços) e o central. Com os jogadores escalonados, sempre existem passes na diagonal e triângulos, e ninguém tapa a linha de passe de um companheiro. O artigo considera os corredores internos talvez os espaços mais importantes, porque costumam ficar entre todas as linhas da defesa rival.
De onde vem
Um especialista ouvido pelo Lance! descreve uma raiz holandesa, no Ajax. A escola de Cruyff aperfeiçoa o jogo de posição, e Guardiola o retoma. Perarnau chama Cruyff de "pai" da ideia. A ligação com o futebol total é direta: os dois tratam as posições como funções numa estrutura, não como lugares fixos de jogadores com nome. O artigo do site de Perarnau também cita Louis van Gaal, que levou o jogo de posição ao Bayern antes de Guardiola, e Lillo.
Da América Latina vem uma das ferramentas mais usadas: a saída lavolpiana, batizada em homenagem ao técnico Ricardo La Volpe. O artigo do site de Perarnau descreve o movimento. Quando o rival pressiona os dois zagueiros com dois atacantes, os zagueiros abrem e um meio-campista desce entre eles. O time passa a sair com três contra dois. Por aqui, o Lance! fala em "saída em três": no Flamengo de Torrent, quem descia era o volante Willian Arão. É uma forma de começar a saída de bola sob pressão.
Como aparece num time moderno
Alguns sinais se repetem nos times de jogo de posição:
- Pontas bem abertos, colados na lateral, para esticar a defesa e abrir os meios-espaços. Veja o guia do ponta.
- Laterais que entram por dentro, como laterais invertidos, para ganhar um homem no meio e proteger contra o contra-ataque.
- Um falso 9 ou um meia no meio-espaço, criando superioridade posicional entre as linhas.
- Uma rest defence organizada atrás da bola, porque os jogadores já estão em zonas planejadas quando a bola se perde.
O contraste brasileiro: Diniz e o jogo aposicional
No Brasil, o jogo de posição ganhou um oposto com nome próprio. Fernando Diniz passou a definir seu modelo como "aposicional". Em 2022, depois de falar sobre o tema no programa Bem, Amigos!, o InformativoMS explicou a diferença. No jogo aposicional, os jogadores trocam de lugar o tempo todo, desde que fiquem perto da bola. No Fluminense de Diniz, Samuel Xavier e Luiz Henrique trocavam de posição, e Arias se aproximava para criar mais uma linha de passe.
Os dois modelos se encontraram na final do Mundial de Clubes, em dezembro de 2023, entre Fluminense e Manchester City. O Lance! resumiu o contraste: nos times de Guardiola, os atletas sabem em qual espaço do campo vão atuar; as peças de Diniz não guardam posição fixa. O próprio Guardiola descreveu o Fluminense numa coletiva: "Não é posicional, eles se movem muito."
O mesmo texto lembra as semelhanças. Os dois admiram a Seleção de 1982 e gostam da posse de bola, mas chegam a ela por métodos diferentes.
Jogo de posição e tiki-taka
O tiki-taka descreve a superfície: muitos passes curtos e longos períodos de posse. O jogo de posição é a estrutura por baixo: onde os jogadores ficam para que esses passes criem vantagem. Um time de jogo de posição pode dar um passe longo se a superioridade estiver lá.
Forças e críticas
A grande força é o controle. Como cada jogador sabe onde ficar, o time mantém a bola sob pressão, ataca com um plano claro e recupera a bola rápido.
No Brasil, segundo o Lance!, a crítica mais ouvida é a de que seria um jogo sem mobilidade, o que os especialistas chamam de preconceito. Outra crítica é a previsibilidade: o artigo do site de Perarnau mostra como o modelo, sem foco e intensidade, vira uma circulação horizontal "plana e previsível". Rivais bem fechados num bloco baixo também podem neutralizar o modelo. É exatamente aí que os defensores do jogo aposicional apontam a vantagem da mobilidade.
Como reconhecer o jogo de posição numa partida
Assista ao time com a bola pela câmera aberta. Se os dois pontas ficam colados na linha lateral, se nunca há dois jogadores alinhados no mesmo corredor e se a bola circula com paciência até alguém receber entre as linhas de frente para o gol, é jogo de posição. Depois, observe a saída: um volante ou um lateral formando uma linha de três ou um quadrado à frente da defesa é outro sinal claro. Para entender cada função dentro desse desenho, veja o guia de posições do futebol.
O que é jogo de posição no futebol?
Jogo de posição, ou jogo posicional, é uma forma de atacar em que os jogadores ocupam zonas planejadas do campo para criar superioridade numérica, qualitativa e posicional. A bola então procura o homem livre que pode explorar essa vantagem.
Quais são as regras do jogo de posição?
As mais citadas são: no máximo três jogadores na mesma linha horizontal e no máximo dois no mesmo corredor vertical, com o campo dividido em cinco corredores. Essas regras criam triângulos e opções de passe na diagonal.
Qual a diferença entre jogo posicional e jogo aposicional?
No jogo posicional, os jogadores ocupam zonas fixas e a bola vai até eles. No aposicional, defendido por Fernando Diniz, os jogadores trocam de lugar livremente e se aproximam da bola. Os dois valorizam a posse de bola.
Quem criou o jogo de posição?
Ninguém sozinho. A raiz é holandesa, no Ajax, e Martí Perarnau chama Johan Cruyff de "pai" da ideia. Louis van Gaal, Juanma Lillo e Ricardo La Volpe também contribuíram. Pep Guardiola é hoje o técnico mais associado a ela.
Fontes e leitura complementar
- Afinal, o que é o jogo posicional? L! consulta especialistas e jornalistas — Lance!
- Explicando o Jogo de Posição — Footure
- Juego de Posición under Pep Guardiola — Martí Perarnau
- Em patamares diferentes, Diniz e Guardiola fazem duelo de estilos de jogo na final do Mundial de Clubes — Lance!
- O que é o "jogo aposicional" que Diniz citou no Bem, Amigos! como sua filosofia tática — InformativoMS