Esquemas e funções · Análise

Esquema tático 5-4-1: nove atrás da bola e um homem sozinho lá na frente

O 5-4-1 tem cinco defensores, quatro meio-campistas e um centroavante. Como a linha de cinco defende recuada, onde contra-ataca e como furar esse bloco.

Diagrama de um 5-4-1 no campo: a linha de cinco defensores destacada em vermelho, uma linha de quatro meio-campistas à frente dela e um centroavante sozinho.
Imagem: Touchline Notes

O 5-4-1 é um esquema tático defensivo com cinco defensores, quatro meio-campistas e um único centroavante. Na maioria dos times, ele é a forma sem bola de um 3-4-3 ou 3-4-2-1: os alas recuam para a última linha e os dois jogadores atrás do atacante recuam para o meio.

Essa segunda frase importa mais do que a primeira. Pouquíssimos técnicos escrevem 5-4-1 na prancheta antes do jogo. Eles escalam uma linha de três com alas e dois jogadores atrás de um centroavante, e o 5-4-1 é o que esse time vira quando o adversário tem a bola: duas linhas compactas na largura do campo, nove jogadores de linha atrás da bola e um atacante sozinho para puxar o contra-ataque. No Brasil, muita gente chamaria isso de retranca. Na prática, é mais organizado do que a palavra sugere. Cada função está explicada no guia de posições do futebol.

O desenho, posição por posição

A linha de cinco tem três zagueiros e dois alas. O zagueiro do meio segura a linha e cuida do centroavante. Os dois de lado cobrem os corredores e acompanham quem infiltra nas costas do ala do seu lado. Como há um defensor sobrando, um zagueiro de lado pode sair para seguir um atacante que recua até o meio, algo que um zagueiro de linha de quatro raramente pode se dar ao luxo de fazer. Para a família inteira de sistemas com três zagueiros, veja a linha de três zagueiros.

Os alas são a dobradiça do desenho. Sem a bola, são laterais numa linha de cinco, responsáveis por bloquear cruzamentos e defender no um contra um. Com um terceiro zagueiro atrás, podem sair da linha para pressionar com mais liberdade do que um lateral teria.

A linha de quatro do meio costuma ter dois meio-campistas centrais e dois abertos. A dupla central muitas vezes é um volante de contenção e um parceiro mais móvel, e o primeiro trabalho dela é ficar ligada à linha de cinco para não abrir espaço entre as linhas. Os dois abertos são, com a bola, os jogadores atrás do centroavante: pontas ou meias-armadores que voltaram para marcar. Eles fecham o espaço até a dupla central e ajudam o ala do seu lado.

O centroavante solitário tem o trabalho mais ingrato do time. Precisa cortar o passe para o volante adversário, correr atrás da bola entre os zagueiros e ainda ter perna para segurá-la ou atacar a profundidade quando o time recupera.

Como defende

O 5-4-1 é o desenho natural do bloco baixo. A Wikipédia em inglês o descreve como um esquema particularmente defensivo, com um atacante isolado e uma defesa congestionada. A linha de cinco ajuda de duas formas. Primeiro, cinco defensores na largura cobrem os lados sem que os zagueiros precisem se afastar uns dos outros. Segundo, o zagueiro extra dá uma sobra contra um centroavante e cobertura contra dois.

A segunda linha, de quatro, faz o trabalho de proteção. Ela mantém curta a distância entre as linhas e fecha os meios-espaços, os corredores entre os defensores de lado e os centrais, onde nasce a maioria das chances contra um bloco recuado. Quando a bola vai para o lado, o desenho bascula: o ala sai no ponta, o meia aberto dobra a marcação e o zagueiro de lado cobre a infiltração por dentro. O time tenta prender a bola junto à linha lateral em vez de deixá-la voltar para o meio.

Como ataca

O 5-4-1 ataca quase sempre em transição. Quando um time recuado recupera a bola, há espaço nas costas do adversário, principalmente pelos lados se os laterais rivais subiram. O primeiro passe costuma ir para o centroavante ou para um dos dois abertos, que viram a dupla de apoio atrás dele assim que a bola é recuperada. É nesse momento que o 5-4-1 volta a ser um 3-4-2-1.

Os alas são a segunda onda. Se conseguem subir, a linha da frente vira de cinco e estica a linha de quatro adversária. O problema é a distância: um ala que estava defendendo na própria área tem uma corrida muito longa pela frente.

Quem o consagrou

A Wikipédia em inglês destaca a Grécia campeã da Eurocopa de 2004, que usou o 5-4-1 contra times com dois atacantes para ter um zagueiro a mais. Um perfil daquela seleção no site Imortais do Futebol resume a ideia do técnico Otto Rehhagel: dois zagueiros fortes no jogo aéreo, um deles atuando quase como líbero, marcação, redução de espaços e um centroavante isolado na frente. Segundo a Wikipédia em inglês, o homem da sobra era Traianos Dellas. No mata-mata, a Grécia venceu a França por 1 a 0, a República Tcheca por 1 a 0 com gol de prata e Portugal por 1 a 0 na final, com gol de cabeça de Charisteas depois de escanteio. As fontes não concordam sobre o desenho exato em cada jogo, o que é normal num time que mudava a linha conforme o adversário.

O exemplo moderno mais completo é o Bayer Leverkusen de Xabi Alonso em 2023-24. Uma análise publicada pelo Arsenal descreve o seu 3-4-2-1 como fluido: abria num 3-4-3 com a bola e fechava num 5-4-1 quando precisava defender. Aquele time foi campeão alemão e sofreu só 24 gols em 34 rodadas. É a prova de que defender num 5-4-1 não significa jogar por uma bola.

Pontos fortes e fracos

Os pontos fortes são os números e a cobertura. Cinco defensores e quatro meio-campistas deixam pouco espaço entre as linhas e nas costas. O zagueiro que sobra absorve erros, e os alas podem pressionar pelos lados sem quebrar a linha. Contra dois atacantes, a defesa fica com três contra dois; contra um, com dois sobrando.

Os pontos fracos vêm das mesmas escolhas. Com um só atacante, a bola volta rápido se ele não conseguir segurá-la. Os alas precisam defender e atacar o campo inteiro, e quando não conseguem o 5-4-1 vira um time que não sai do próprio campo. Três zagueiros cobrem menos largura do que quatro quando o time está adiantado, então os contra-ataques procuram o espaço atrás de um ala que ficou lá na frente. E a dupla central pode sofrer superioridade numérica depois de uma perda, porque são só dois.

Como muda com e sem a bola

O 5-4-1 é mais um sobrenome do que um esquema. Com a bola, costuma ser um destes três:

Com a bola O que muda Sem a bola
3-4-3 Os atacantes de lado recuam para o meio 5-4-1
3-4-2-1 Os dois meias abrem para formar uma linha de quatro 5-4-1
3-5-2 Um atacante recua para o meio 5-4-1 ou 5-3-2

Um 3-4-3 também pode defender num 5-2-3, com o trio da frente ficando alto para pressionar. Escolher entre os dois é escolher onde defender: o 5-2-3 recupera a bola mais alto, mas expõe a dupla central; o 5-4-1 cede território para proteger o meio.

Como reconhecer e como vencer

Você reconhece um 5-4-1 contando a última linha quando o adversário tem a bola no próprio campo. Se há cinco, e dois deles estavam no meio-campo um minuto antes, o time defende com linha de cinco. A segunda pista é o centroavante: se ele é o único à frente da bola, a segunda linha é de quatro.

Furá-lo é questão de largura e velocidade. Inversões fazem as duas linhas bascularem muito, e uma inversão rápida pode deixar um ponta no um contra um com o ala. Prender os alas com atacantes altos e abertos impede que eles saiam no contra-ataque e deixa o centroavante sozinho. Jogadores que recebem entre a linha de quatro e a de cinco obrigam um zagueiro a sair, e quem infiltra no espaço que ele deixou é o caminho clássico. Por fim, manter gente atrás quando ataca tira o contra-ataque do adversário; uma boa rest defence é o que permite ter paciência contra um bloco recuado.

O 5-4-1 é um esquema defensivo?

Sim, no sentido de que coloca nove jogadores de linha atrás da bola. Mas a maioria dos times que defende num 5-4-1 ataca num 3-4-3 ou 3-4-2-1, então o nome descreve a forma sem bola, não o jogo inteiro. O Leverkusen campeão de 2023-24 defendia assim e, segundo a análise do Arsenal, ficou com 62,1% da posse na Bundesliga.

Qual a diferença entre 5-4-1 e 5-3-2?

O 5-4-1 tem um atacante e quatro meio-campistas; o 5-3-2 tem dois atacantes e três meio-campistas. O 5-4-1 cobre melhor a largura no meio, enquanto o 5-3-2 deixa dois jogadores lá na frente para o contra-ataque. Um 3-5-2 costuma defender num 5-3-2, e um 3-4-3 num 5-4-1.

Por que um time joga no 5-4-1?

Em geral porque espera ter menos a bola, quer segurar um resultado ou enfrenta um adversário com dois atacantes. A Grécia da Eurocopa de 2004 o usava justamente por esse último motivo, para ter um zagueiro a mais. A linha de cinco também dá aos alas liberdade para pressionar pelos lados sem expor o meio.

Coloque o 5-4-1 na prancheta tática.

Fontes e leitura complementar

  1. Formation (association football) — Wikipedia
  2. Grécia 2004: a incrível seleção campeã da Eurocopa — Imortais do Futebol
  3. The tactics that saw Leverkusen become Invincibles — Arsenal