Esquemas e funções · Análise
Líbero: o zagueiro da sobra e por que ele sumiu do futebol
Líbero é o zagueiro livre que joga na sobra, atrás dos marcadores. Do catenaccio a Beckenbauer e Mauro Galvão em 1990, e por que a função sumiu.
O líbero é um zagueiro sem adversário fixo para marcar, posicionado atrás dos companheiros que disputam os duelos. Ele joga na sobra: recolhe a bola que passa pelos marcadores e corrige o espaço deixado por quem saiu para combater. O nome vem do italiano libero, "livre". Ser livre da marcação individual exige mais leitura, não menos responsabilidade.
A ideia nasceu nos anos 1930. O técnico austríaco Karl Rappan, na Suíça, puxou um defensor para trás da linha num sistema que ficou conhecido como ferrolho suíço. Os italianos adotaram o conceito depois da guerra, e a Inter de Helenio Herrera ganhou duas Copas dos Campeões com Armando Picchi como líbero atrás de marcadores individuais, no famoso catenaccio. A lógica era de seguro: quando cada defensor persegue um atacante pelo campo todo, um duelo perdido vira gol, a não ser que exista um homem livre atrás para limpar.
Beckenbauer e o líbero que ataca
Franz Beckenbauer mudou o sentido da posição. Ele percebeu que o homem livre também estava livre quando o time tinha a bola. Sem ninguém para vigiar, podia sair conduzindo da defesa, chegar ao meio-campo e aparecer no ataque. É o chamado líbero alemão, e na Alemanha campeã do mundo em 1974 ele jogava atrás de uma linha de três defensores. Na Itália, Franco Baresi mostrou que a mesma leitura de jogo cabia no Milan. Essa influência na circulação lembra a do regista, mas o ponto de partida e a obrigação de cobertura são outros.
A função no futebol brasileiro
No Brasil, o líbero teve espaço, mas quase sempre adaptado. Na Copa de 1990, Sebastião Lazaroni colocou Mauro Galvão como líbero da Seleção. Edinho e Ricardo Rocha também fizeram a função em alguns momentos, e o Mogi Mirim de Osvaldo Alvarez usou Capone como líbero num 3-5-2 de muita movimentação. Em 2002, Felipão foi campeão do mundo com três zagueiros, mas ali a lógica era outra: liberar Cafu e Roberto Carlos para atacar. Nos anos 1990, vários times brasileiros passaram a usar três zagueiros, e a Wikipédia em português resume o debate que ficou: muitos técnicos chamavam de líbero o que, na prática, era só um terceiro zagueiro.
Terceiro zagueiro não é líbero
É importante separar a sobra da função. O zagueiro do meio numa linha de três moderna não é automaticamente um líbero. Ele costuma jogar alinhado aos outros dois, com referências zonais. O líbero clássico ficava alguns metros atrás, o que muda a altura da linha defensiva e o uso do impedimento. A quantidade de zagueiros, sozinha, não define nada.
Por que a função desapareceu
A função desapareceu por três motivos. A marcação por zona tirou a necessidade de um homem sobrando, porque todos cobrem espaços e uns aos outros. A linha alta e a linha de impedimento transformaram o jogador recuado num problema, já que ele dava condição a todo atacante. E a pressão empurrou o time inteiro para a frente. Nos anos 2000, o 4-4-2 com duas linhas compactas e dois zagueiros lado a lado virou padrão.
As tarefas, porém, foram distribuídas. O zagueiro que conduz na saída de bola, como Thiago Silva, faz parte do que Beckenbauer fazia. O goleiro que sai da área para cortar um lançamento cobre as costas de uma linha alta. E a segurança que o líbero dava ao time é hoje coletiva, organizada como rest defence, e não entregue a um único jogador.
Para reconhecer um líbero num jogo antigo, observe quem não acompanha nenhum atacante, onde ele espera antes do passe e quem cobre o duelo perdido. Num 3-5-2, recuar o zagueiro central alguns metros no quadro ajuda a ver a diferença entre a sobra e uma linha plana.
No papel, o líbero era apenas um dos zagueiros. O guia das posições do futebol explica a diferença entre uma posição como essa e uma função como esta: a posição diz onde o jogador começa; a função, o que ele faz a partir dali.
A versão mais ofensiva do zagueiro livre pertenceu ao futebol total: no sistema holandês dos anos 1970, o último homem podia subir ao meio-campo porque um companheiro sempre ocupava o seu lugar.
O antepassado defensivo do líbero é o homem da sobra do catenaccio, o sistema italiano em que os marcadores individuais tinham atrás deles um jogador livre cobrindo todos.
O líbero é o contraste mais claro com o zagueiro de hoje, que defende em linha com um companheiro em vez de atrás dela. A comparação líbero ou zagueiro coloca as duas funções frente a frente.
A ideia do líbero, um defensor a mais atrás da linha, voltou com outra camisa: o goleiro-líbero, que sai da área para cortar as bolas lançadas nas costas de uma defesa adiantada.
Por que o líbero sumiu do futebol?
Porque ele resolvia um problema que o futebol quase não tem mais. A marcação individual precisava de um homem livre atrás. A marcação por zona tornou cada zagueiro parcialmente livre, e a linha alta com impedimento tornou perigoso manter alguém recuado. As funções do líbero continuam existindo, mas divididas entre zagueiros, volantes e goleiro.
Líbero e zagueiro são a mesma coisa?
Todo líbero é um zagueiro, mas nem todo zagueiro é líbero. O zagueiro comum marca uma zona ou um atacante. O líbero não tem marcação fixa e joga atrás da linha, na sobra, cobrindo os companheiros e, na versão de Beckenbauer, saindo para o jogo com a bola.
Quem inventou o líbero?
A ideia do líbero nasceu nos anos 1930, com o técnico austríaco Karl Rappan, que na Suíça puxou um defensor para trás da linha num sistema conhecido como ferrolho suíço. Os italianos adotaram o conceito depois da guerra, e a Inter de Helenio Herrera ganhou duas Copas dos Campeões com Armando Picchi como líbero atrás de marcadores individuais, no catenaccio.
Quem jogou de líbero na Seleção brasileira?
Na Copa de 1990, Sebastião Lazaroni colocou Mauro Galvão como líbero da Seleção. Edinho e Ricardo Rocha também fizeram a função em alguns momentos. No Brasil, porém, o líbero quase sempre foi adaptado, e nos anos 1990 muitos técnicos chamavam de líbero o que, na prática, era só um terceiro zagueiro numa linha de três.
Fontes e leitura complementar
- Catenaccio — Wikipedia
- Defender (association football): Sweeper — Wikipedia
- Franz Beckenbauer revolutionized soccer with sweeper role — CNN