Esquemas e funções · Análise

Líbero e zagueiro: o homem da sobra e a dupla de zaga em linha

O líbero joga na sobra, atrás dos outros defensores e sem marcar ninguém; o zagueiro defende em linha com o parceiro. Tabela, esquemas e exemplos.

Dois campos lado a lado. À esquerda, um 5-3-2 com o zagueiro central, o líbero, em vermelho, alguns metros atrás dos outros defensores. À direita, um 4-4-2 com os dois zagueiros em vermelho numa linha de quatro reta, ligados por uma linha.
Imagem: Touchline Notes

O líbero é o defensor da sobra: não marca ninguém e joga atrás dos outros zagueiros para cobri-los. O zagueiro de uma linha de quatro defende uma zona na mesma altura do parceiro, e a cobertura vem da própria linha.

Os dois são defensores centrais; a diferença está no sistema em volta deles. O líbero pertence às defesas com marcação individual, em que cada defensor persegue um atacante. O zagueiro moderno pertence às defesas por zona, em que todos guardam espaço e ninguém sobra.

Líbero Zagueiro numa linha de quatro
Onde fica Atrás da linha de defesa, na sobra Na mesma altura do parceiro, um dos dois do centro
Trabalho principal Cobrir as costas dos marcadores e limpar a sobra Defender a sua zona e segurar a linha com o parceiro
Marcação Nenhuma: ele é o homem "livre" Por zona: cuida de uma área e passa o atacante adiante
Com a bola Livre para sair jogando até o meio-campo Primeiro passe da saída de bola; o zagueiro construtor também conduz
Esquemas típicos Ferrolho, 5-3-2 e outras linhas de cinco da era da marcação individual 4-4-2, 4-3-3, 4-2-3-1
Quem está em volta Marcadores individuais à frente dele Um parceiro ao lado e um lateral de cada lado
Exemplos Franz Beckenbauer, Franco Baresi, Mauro Galvão Thiago Silva, Virgil van Dijk

O que cada um faz sem a bola

Líbero quer dizer "livre" em italiano, e a liberdade é a questão toda. A Wikipédia em português o define como o zagueiro de sobra de uma equipe. Num sistema de marcação individual, cada defensor recebe um atacante e o acompanha. Se um deles perde o duelo, o atacante sai cara a cara com o goleiro. O líbero é o seguro: fica atrás dos marcadores, lê de onde vem o perigo e chega antes. O Lance! descreve o trabalho como limpar a sobra e interceptar os passes em profundidade.

O zagueiro de uma linha de quatro não tem ninguém atrás dele além do goleiro. Ele e o parceiro guardam cada um uma área na frente do gol e marcam o atacante que entra nela. A Wikipédia descreve a dupla assim: um vai no lance e o outro cobre o ressalto. A cobertura vem da linha, não de um homem a mais. Quando um zagueiro sai para combater, o outro e os laterais fecham o espaço. A dupla também decide junta quando a linha sobe para deixar o atacante em impedimento e quando recua.

O que cada um faz com a bola

Os primeiros líberos quase só afastavam a bola. Franz Beckenbauer mudou isso na Alemanha. A Wikipédia em português registra a explicação dele: jogando atrás dos zagueiros e saindo para o jogo, teria a vantagem de atacar pelos dois lados. A Trivela chama esse modelo de "líbero alemão". Depois vieram Franco Baresi, na Itália, e Lothar Matthäus, que resumiu a função na Trivela: manter a posição e ler o jogo.

O zagueiro moderno herdou boa parte desse trabalho. Na maioria dos times, é ele quem dá o primeiro passe, recebendo do goleiro e escolhendo entre o passe curto, a bola para o lado ou o passe que fura a primeira linha de pressão. O Lance! cita Thiago Silva, ao lado de Piqué, Van Dijk e Marquinhos, entre os zagueiros modernos que incorporaram as funções do líbero, como sair jogando. A diferença é que ele faz isso a partir de uma linha para a qual precisa voltar. O líbero não tinha lugar fixo para onde voltar.

Por que o líbero sumiu

O Milan de Arrigo Sacchi mostrou a alternativa. Sacchi trocou a marcação individual pela marcação por zona, num 4-4-2 com linha alta, armadilha do impedimento e pressão no campo todo. Com Baresi, Paolo Maldini, Alessandro Costacurta e Mauro Tassotti atrás, ganhou as Copas dos Campeões de 1989 e 1990.

Cada parte desse sistema trabalhava contra o líbero:

  • A marcação por zona acabou com a necessidade de um homem sobrando. Se ninguém persegue um adversário, não existe o buraco que um duelo perdido abre.
  • A linha de impedimento exige todos os defensores na mesma altura. Um jogador alguns metros atrás dá condição a todos os atacantes.
  • A pressão empurrou o time inteiro para a frente e pediu que a defesa acompanhasse, não que ficasse recuada.

A Wikipédia em português acrescenta outro motivo: a maioria dos times joga com um atacante fixo só, e dois zagueiros bastam para ele. Baresi, segundo a Trivela, encerrou o assunto: o líbero não existe mais.

O líbero no Brasil

A Wikipédia em português observa que, em 1990, Mauro Galvão era chamado de líbero, mas atuava na sobra. A Trivela conta que Sebastião Lazaroni o usou nessa função na Copa de 1990, num 3-5-2. O Lance! lembra que Mauro Galvão, Edinho e Ricardo Rocha fizeram o papel em alguns momentos, especialmente quando o time jogava com três zagueiros.

O penta de 2002 também tinha três defensores: Lúcio, Edmílson e Roque Júnior, no 3-5-2 de Felipão. Mas a Wikipédia e a Trivela concordam que aquilo era mais um terceiro zagueiro do que um líbero.

Onde as ideias do líbero sobrevivem

As funções foram divididas, não perdidas.

  • O zagueiro do meio numa linha de três. Numa linha de três zagueiros, o defensor central costuma organizar a linha e sair com a bola, o mais perto que o futebol de hoje chega do líbero.
  • O zagueiro construtor. É o herdeiro com a bola, do tipo que o Lance! associa a Thiago Silva.

A segurança que o líbero dava atrás de um time ofensivo agora é organizada em grupo, na rest defence.

Em que esquemas cada um joga

A casa natural do líbero é a linha de cinco da era da marcação individual. A Wikipédia em português aponta a Suíça de Karl Rappan na Copa de 1938 como o primeiro time conhecido a usar um jogador atrás da linha de defesa, no chamado ferrolho, uma espécie de 5-4-1. O ferrolho suíço deu origem ao catenaccio italiano, com um líbero fixo atrás da linha. A Inter de Helenio Herrera levou o sistema ao auge nos anos 1960 e ganhou duas Copas dos Campeões, com Armando Picchi de líbero, como lembra a Trivela. Veja o diagrama do 5-3-2 e o artigo sobre o 5-3-2, e imagine o zagueiro do meio alguns metros mais recuado que os outros.

O zagueiro em linha pertence aos esquemas com quatro atrás: o 4-4-2 de Sacchi e o 4-3-3 comum hoje. Os artigos sobre o 4-4-2 e o 4-3-3 explicam a linha de quatro em cada um. O 3-5-2 moderno fica no meio do caminho: três zagueiros na mesma linha, com o do meio muitas vezes organizando a defesa e dando o primeiro passe.

Como diferenciar numa partida

Olhe a linha de defesa quando o adversário ataca. Se um defensor central fica sempre alguns metros atrás dos outros enquanto os companheiros acompanham atacantes, é um líbero. Se os defensores mantêm uma linha reta e se deslocam juntos conforme a bola anda, são zagueiros por zona.

Com a bola, veja quem sai conduzindo. O líbero que avança até o meio não deixa nenhum adversário livre, porque não marcava ninguém. O zagueiro que avança a partir de uma linha de quatro precisa que o volante ou um lateral cubra o lugar dele.

Quando o técnico escolhe um ou outro

Quase todo técnico hoje escolhe o zagueiro por zona: a linha permite defender alto, usar o impedimento e pressionar, sem gastar um jogador só com cobertura. O líbero de verdade só faz sentido numa defesa com marcação individual, e a função está praticamente extinta. Quem quer as qualidades de um defensor livre hoje as busca numa linha de três com um zagueiro construtor no meio.

Qual a diferença entre líbero e zagueiro?

O líbero não tem adversário direto e joga atrás dos outros defensores para cobri-los. O zagueiro de uma linha de quatro defende uma zona na mesma altura do parceiro.

Por que o líbero sumiu do futebol?

A marcação por zona acabou com a necessidade de um homem sobrando, e a linha de impedimento exige todos os defensores na mesma altura. Um líbero mais recuado dá condição aos atacantes e impede o time de defender adiantado.

O zagueiro do meio numa linha de três é um líbero?

Não exatamente, porque ele costuma jogar na mesma linha dos outros dois. Mas muitas vezes ele faz o que o líbero fazia com a bola: organiza a defesa e sai jogando.

Líbero e zagueiro de sobra são a mesma coisa?

Na prática, sim. "Sobra" é a palavra brasileira para a posição do líbero, atrás da linha. A Wikipédia em português define o líbero exatamente como o zagueiro de sobra.

Você pode colocar um 5-3-2 na prancheta tática.

Fontes e leitura complementar

  1. Líbero (futebol) — Wikipédia
  2. Vida e morte do líbero — Trivela
  3. Líbero, o zagueiro que sumiu do futebol moderno — Lance!
  4. Zagueiro — Wikipédia
  5. Arrigo Sacchi — Wikipedia